quinta-feira, 21 de julho de 2011


Meu filho, você não merece nada

A crença de que a felicidade é um direito

tem tornado despreparada a geração mais preparada



Eliane Brum

ELIANE BRUM
Jornalista, escritora e documentarista.

Ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem.

É autora de Coluna Prestes – O Avesso da Lenda (Artes e Ofícios),

A Vida Que Ninguém Vê (Arquipélago Editorial, Prêmio Jabuti 2007)

e O Olho da Rua (Globo).


E-mail: elianebrum@uol.com.br

Twitter: @brumelianebrum

Ao conviver com os bem mais jovens, com aqueles que se tornaram adultos há pouco

e com aqueles que estão tateando para virar gente grande, percebo que estamos diante da geração mais preparada

– e, ao mesmo tempo, da mais despreparada.

Preparada do ponto de vista das habilidades, despreparada porque não sabe lidar com frustrações.

Preparada porque é capaz de usar as ferramentas da tecnologia, despreparada porque despreza o esforço.

Preparada porque conhece o mundo em viagens protegidas, despreparada porque desconhece a fragilidade da matéria da vida.

E por tudo isso sofre, sofre muito, porque foi ensinada a acreditar que nasceu com o patrimônio da felicidade.

E não foi ensinada a criar a partir da dor.


Há uma geração de classe média que estudou em bons colégios,

é fluente em outras línguas, viajou para o exterior e teve acesso à cultura e à tecnologia.

Uma geração que teve muito mais do que seus pais. Ao mesmo tempo, cresceu com a ilusão de que a vida é fácil.

Ou que já nascem prontos – bastaria apenas que o mundo reconhecesse a sua genialidade.


Tenho me deparado com jovens que esperam ter no mercado de trabalho uma continuação de suas casas

– onde o chefe seria um pai ou uma mãe complacente, que tudo concede.

Foram ensinados a pensar que merecem, seja lá o que for que queiram.

E quando isso não acontece – porque obviamente não acontece – sentem-se traídos,

revoltam-se com a “injustiça” e boa parte se emburra e desiste.


Como esses estreantes na vida adulta foram crianças e adolescentes que ganharam tudo,

sem ter de lutar por quase nada de relevante, desconhecem que a vida é construção

– e para conquistar um espaço no mundo é preciso ralar muito.

Com ética e honestidade – e não a cotoveladas ou aos gritos.

Como seus pais não conseguiram dizer, é o mundo que anuncia a eles uma nova não lá muito animadora:

viver é para os insistentes.


Por que boa parte dessa nova geração é assim?

Penso que este é um questionamento importante para quem está educando uma criança ou um adolescente hoje.

Nossa época tem sido marcada pela ilusão de que a felicidade é uma espécie de direito.

E tenho testemunhado a angústia de muitos pais para garantir que os filhos sejam “felizes”.

Pais que fazem malabarismos para dar tudo aos filhos e protegê-los de todos os perrengues

– sem esperar nenhuma responsabilização nem reciprocidade.


É como se os filhos nascessem e imediatamente os pais já se tornassem devedores.

Para estes, frustrar os filhos é sinônimo de fracasso pessoal.

Mas é possível uma vida sem frustrações?

Não é importante que os filhos compreendam como parte do processo educativo

duas premissas básicas do viver, a frustração e o esforço?

Ou a falta e a busca, duas faces de um mesmo movimento?

Existe alguém que viva sem se confrontar dia após dia com os limites

tanto de sua condição humana como de suas capacidades individuais?


Nossa classe média parece desprezar o esforço. Prefere a genialidade.

O valor está no dom, naquilo que já nasce pronto. Dizer que “fulano é esforçado” é quase uma ofensa.

Ter de dar duro para conquistar algo parece já vir assinalado com o carimbo de perdedor.

Bacana é o cara que não estudou, passou a noite na balada e foi aprovado no vestibular de Medicina.

Este atesta a excelência dos genes de seus pais.

Esforçar-se é, no máximo, coisa para os filhos da classe C, que ainda precisam assegurar seu lugar no país.


Da mesma forma que supostamente seria possível construir um lugar sem esforço,

existe a crença não menos fantasiosa de que é possível viver sem sofrer.

De que as dores inerentes a toda vida são uma anomalia e, como percebo em muitos jovens,

uma espécie de traição ao futuro que deveria estar garantido.

Pais e filhos têm pagado caro pela crença de que a felicidade é um direito.

E a frustração um fracasso. Talvez aí esteja uma pista para compreender a geração do “eu mereço”.


Basta andar por esse mundo para testemunhar o rosto de espanto e de mágoa de jovens

ao descobrir que a vida não é como os pais tinham lhes prometido.

Expressão que logo muda para o emburramento. E o pior é que sofrem terrivelmente.

Porque possuem muitas habilidades e ferramentas, mas não têm o menor preparo para lidar com a dor e as decepções.

Nem imaginam que viver é também ter de aceitar limitações

– e que ninguém, por mais brilhante que seja, consegue tudo o que quer.


A questão, como poderia formular o filósofo Garrincha, é:

“Estes pais e estes filhos combinaram com a vida que seria fácil”?

É no passar dos dias que a conta não fecha e o projeto construído sobre fumaça desaparece deixando nenhum chão.

Ninguém descobre que viver é complicado quando cresce ou deveria crescer

– este momento é apenas quando a condição humana, frágil e falha,

começa a se explicitar no confronto com os muros da realidade.

Desde sempre sofremos. E mais vamos sofrer se não temos espaço nem mesmo para falar da tristeza e da confusão.


Me parece que é isso que tem acontecido em muitas famílias por aí:

se a felicidade é um imperativo, o item principal do pacote completo

que os pais supostamente teriam de garantir aos filhos para serem considerados bem sucedidos,

como falar de dor, de medo e da sensação de se sentir desencaixado?

Não há espaço para nada que seja da vida, que pertença aos espasmos de crescer duvidando de seu lugar no mundo,

porque isso seria um reconhecimento da falência do projeto familiar construído sobre a ilusão da felicidade e da completude.


Quando o que não pode ser dito vira sintoma – já que ninguém está disposto a escutar,

porque escutar significaria rever escolhas e reconhecer equívocos – o mais fácil é calar.

E não por acaso se cala com medicamentos e cada vez mais cedo

o desconforto de crianças que não se comportam segundo o manual.

Assim, a família pode tocar o cotidiano sem que ninguém precise olhar de verdade para ninguém dentro de casa.


Se os filhos têm o direito de ser felizes simplesmente porque existem

– e aos pais caberia garantir esse direito –

que tipo de relação pais e filhos podem ter?

Como seria possível estabelecer um vínculo genuíno se o sofrimento, o medo e as dúvidas estão previamente fora dele?

Se a relação está construída sobre uma ilusão, só é possível fingir.


Aos filhos cabe fingir felicidade – e, como não conseguem, passam a exigir cada vez mais de tudo,

especialmente coisas materiais, já que estas são as mais fáceis de alcançar

– e aos pais cabe fingir ter a possibilidade de garantir a felicidade,

o que sabem intimamente que é uma mentira porque a sentem na própria pele dia após dia.

É pelos objetos de consumo que a novela familiar tem se desenrolado, onde os pais fazem de conta que dão o que ninguém pode dar,

e os filhos simulam receber o que só eles podem buscar.

E por isso logo é preciso criar uma nova demanda para manter o jogo funcionando.


O resultado disso é pais e filhos angustiados, que vão conviver uma vida inteira, mas se desconhecem.

E, portanto, estão perdendo uma grande chance. Todos sofrem muito nesse teatro de desencontros anunciados.

E mais sofrem porque precisam fingir que existe uma vida em que se pode tudo.

E acreditar que se pode tudo é o atalho mais rápido

para alcançar não a frustração que move, mas aquela que paralisa.


Quando converso com esses jovens no parapeito da vida adulta,

com suas imensas possibilidades e riscos tão grandiosos quanto, percebo que precisam muito de realidade.

Com tudo o que a realidade é. Sim, assumir a narrativa da própria vida é para quem tem coragem.

Não é complicado porque você vai ter competidores com habilidades iguais ou superiores a sua,

mas porque se tornar aquilo que se é, buscar a própria voz,

é escolher um percurso pontilhado de desvios e sem nenhuma certeza de chegada.

É viver com dúvidas e ter de responder pelas próprias escolhas.

Mas é nesse movimento que a gente vira gente grande.


Seria muito bacana que os pais de hoje entendessem

que tão importante quanto uma boa escola ou um curso de línguas ou um Ipad

é dizer de vez em quando: “Te vira, meu filho. Você sempre poderá contar comigo, mas essa briga é tua”.

Assim como sentar para jantar e falar da vida como ela é: “Olha, meu dia foi difícil” ou

“Estou com dúvidas, estou com medo, estou confuso” ou “Não sei o que fazer, mas estou tentando descobrir”.

Porque fingir que está tudo bem e que tudo pode significa dizer ao seu filho que você não confia nele nem o respeita,

já que o trata como um imbecil, incapaz de compreender a matéria da existência.

É tão ruim quanto ligar a TV em volume alto o suficiente para que nada que ameace o frágil equilíbrio doméstico possa ser dito.


Agora, se os pais mentiram que a felicidade é um direito e seu filho merece tudo simplesmente por existir, paciência.

De nada vai adiantar choramingar ou emburrar ao descobrir

que vai ter de conquistar seu espaço no mundo sem nenhuma garantia.

O melhor a fazer é ter a coragem de escolher.

Seja a escolha de lutar pelo seu desejo – ou para descobri-lo –, seja a de abrir mão dele.

E não culpar ninguém porque eventualmente não deu certo, porque com certeza vai dar errado muitas vezes.

Ou transferir para o outro a responsabilidade pela sua desistência.


Crescer é compreender que o fato de a vida ser falta não a torna menor.

Sim, a vida é insuficiente. Mas é o que temos.

E é melhor não perder tempo se sentindo injustiçado porque um dia ela acaba.


(Eliane Brum escreve às segundas-feiras.)

terça-feira, 19 de julho de 2011

Sobre Educação - por Içami Tiba

Palestra ministrada pelo médico psiquiatra Dr. Içami Tiba, em Curitiba, 23/07/2009

O palestrante é membro eleito do Board of Directors of the International Association of Group Psychotherapy.Conselheiro do Instituto Nacional de Capacitação e Educação para o Trabalho "Via de Acesso".

1. A educação não pode ser delegada à escola. Aluno é transitório.
Filho é para sempre.
2. O quarto não é lugar para fazer criança cumprir castigo.
Não se pode castigar com internet, som, tv, etc...
3. Educar significa punir as condutas derivadas de um comportamento errôneo.Queimou índio pataxó, a pena (condenação judicial) deve ser passar o dia todo em hospital de queimados. 4. É preciso confrontar o que o filho conta com a verdade real.
Se falar que professor o xingou, tem que ir até a escola e ouvir o outro lado,além das testemunhas.
5. Informação é diferente de conhecimento. O ato de conhecer vem após o ato de ser informado de alguma coisa. Não são todos que conhecem.
Conhecer camisinha e não usar significa que não se tem o conhecimento da prevenção que a camisinha proporciona.
6. A autoridade deve ser compartilhada entre os pais. Ambos devem mandar.
Não podem sucumbir aos desejos da criança. Criança não quer comer?
A mãe não pode alimentá-la. A criança deve aguardar até a próxima refeição que a família fará. A criança não pode alterar as regras da casa.
A mãe NÃO PODE interferir nas regras ditadas pelo pai (e nas punições também) e vice-versa. Se o pai determinar que não haverá um passeio, a mãe não pode interferir.Tem que respeitar sob pena de criar um delinquente.
7. Em casa que tem comida, criança não morre de fome. Se ela quiser comer, saberá a hora. E é o adulto quem tem que dizer QUAL É A HORA de se comer e o que comer. 8. A criança deve ser capaz de explicar aos pais a matéria que estudou e na qual será testada.Não pode simplesmente repetir, decorado.
Tem que entender.
9. É preciso transmitir aos filhos a idéia de que temos de produzir o máximo que podemos. Isto porque na vida não podemos aceitar a média exigida pelo colégio: não podemos dar 70% de nós, ou seja, não podemos tirar 7,0.
10. As drogas e a gravidez indesejada estão em alta porque os adolescentes estão em busca de prazer. E o prazer é inconsequente.
11. A gravidez é um sucesso biológico e um fracasso sob o ponto de vista sexual.
12. Maconha não produz efeito só quando é utilizada. Quem está são, mas é dependente,agride a mãe para poder sair de casa, para fazer uso da droga.
A mãe deve, então, virar as costas e não aceitar as agressões. Não pode ficar discutindo e tentando dissuadi-lo da ideia. Tem que dizer que não conversará com ele e pronto.Deve 'abandona-lo'.
13. A mãe é incompetente para 'abandonar' o filho. Se soubesse fazê-lo, o filho a respeitaria. Como sabe que a mãe está sempre ali, não a respeita.
14. Se o pai ficar nervoso porque o filho aprontou alguma coisa, não deve alterar a voz. Deve dizer que está nervoso e, por isso, não quer discussão até ficar calmo. A calmaria, deve o pai dizer, virá em 2, 3, 4 dias. Enquanto isso, o videogame, as saídas, a balada, ficarão suspensas, até ele se acalmar e aplicar o devido castigo.
15. Se o filho não aprendeu ganhando, tem que aprender perdendo.
16. Não pode prometer presente pelo sucesso que é sua obrigação. Tirar nota boa é obrigação. Não xingar avós é obrigação. Ser polido é obrigação. Passar no vestibular é obrigação. Se ganhou o carro após o vestibular, ele o perderá se for mal na faculdade.
17. Quem educa filho é pai e mãe. Avós não podem interferir na educação do neto, de maneira alguma. Jamais. Não é cabível palpite. Nunca.
18. Se a mãe engolir sapos do filho, ele pensará que a sociedade terá que engolir também.
19. Videogames são um perigo: os pais têm que explicar como é a realidade, mostrar que na vida real não existem 'vidas', e sim uma única vida. Não dá para morrer e reviver. Não dá para apostar tudo, apertar o botão e zerar a dívida.
20. Professor tem que ser líder. Inspirar liderança. Não pode apenas bater cartão.
21. Pais e mães não podem se valer do filho por uma inabilidade que eles tenham.
'Filho, digite isso aqui para mim porque não sei lidar com o computador'. Pais têm que saber usar o Skype, pois no mundo em que a ligação é gratuita pelo Skype,é inconcebível pagarem para falar com o filho que mora longe.
22. O erro mais frequente na educação do filho é colocá-lo no topo da casa. O filho não pode ser a razão de viver de um casal. O filho é um dos elementos. O casal tem que deixá-lo, no máximo, no mesmo nível que eles. A sociedade pagará o preço quando alguém é educado achando-se o centro do universo.
23. Filhos drogados são aqueles que sempre estiveram no topo da família.
24. Cair na conversa do filho é criar um marginal. Filho não pode dar palpite em coisa de adulto. Se ele quiser opinar sobre qual deve ser a geladeira, terá que mostrar qual é o consumo (KWh) da que ele indicar. Se quiser dizer como deve ser a nova casa, tem que dizer quanto isso (seus supostos luxos) incrementará o gasto final.
25. Dinheiro 'a rodo' para o filho é prejudicial. Mesmo que os pais o tenham, precisam controlar e ensinar a gastar.
Frase: "A mãe (ou o pai!) que leva o filho para a igreja, para um templo, para uma doutrina espiritual, não vai buscá-lo na cadeia..."

sábado, 16 de julho de 2011


Alunas do Curso de Pós-graduação Práticas ludopedagógicas Forquilhinha SC
A oficina de literatura infantil é oferecida a docentes da área de educação infantil e séries iniciais do Ensino Fundamental.

terça-feira, 12 de julho de 2011

O PÃO DE CRISTO

Uma história que cativa e ao mesmo tempo nos faz refletir de como o ser humano é frágil e necessita do outro para lembrá-lo que devemos co...